Veiculo:
CORREIO WEB (DF)
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ÚLTIMAS NOTÍCIAS
  Data:
2018-11-09
  Localidade:
DISTRITO FEDERAL
  Hora:
09:19:15
  Tema:
MINISTÉRIO DOS TRANSPORTES
  Avaliação:
NEUTRA
  Autor: Simone Kafruni

Estudo mostra que investimentos em rodovias são feitos de modo equivocado

Transporte rodoviário no país pode até piorar se investimentos no setor forem feitos como previsto nos programas do governo, sugere pesquisador
 
postado em 09/11/2018 06:00 / atualizado em 08/11/2018 23:16

Se todos os projetos previstos no Plano Nacional de Logística (PNL), do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), forem concluídos até 2025, a situação rodoviária do país pode ficar pior do que está hoje. Isso porque o PNL não contempla a manutenção das estradas, e mais da metade estará em péssimas condições até lá. A conclusão é do pesquisador da Fundação Dom Cabral (FDC) Paulo Resende, coordenador da Plataforma de Infraestrutura em Logística de Transportes (PILT). “Estão construindo puxadinho em casa velha, quando é possível investir R$ 300 bilhões até 2035, com 70% de recursos privados, para otimizar o setor”, alertou.

Pela estimativa do pesquisador, com esse montante, do qual a participação de recursos públicos seria de R$ 90 bilhões, diluídos em 17 anos, é possível reduzir o custo com transportes em R$ 31 bilhões por ano em 2035. “O investimento se paga em 10 anos”, disse. Para se ter um comparativo, o projeto do presidente eleito Jair Bolsonaro para infraestrutura prevê investimentos de R$ 180 bilhões em 2019, o que é considerada uma meta bastante ambiciosa por vários especialistas. “É possível fazer muito mais com a metade do dinheiro”, defendeu Resende.

Segundo o estudo inédito desenvolvido pela PILT, da forma como estão no PPI — que o novo governo promete aproveitar — , os projetos não vão mudar a matriz de transporte nacional a ponto de tirar o peso das rodovias e tornar a distribuição entre os modais mais equilibrada. Para chegar a essa conclusão, Resende explicou que a plataforma minera o Big Data, a partir de dados de vários órgãos governamentais, entre eles, a Empresa de Planejamento e Logística (EPL), o Ministério dos Transportes e a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). “O conceito do estudo é de demanda por infraestrutura, baseado em rigor técnico, transparência e imparcialidade, sem dinheiro público e sem ingerência do setor privado que o financiou”, detalhou.

A partir da Matriz de Origem e Destino (MOD) desenvolvida pela EPL em 2015 e de acesso a dados privados, com ajuda da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), a pesquisa avaliou mais de 195 mil quilômetros (km) de estradas, responsáveis por 89% do tráfego brasileiro, e 19 mil km de ferrovias, além dos modais aquaviário e dutoviário. “O que se percebe é que temos rodovias de nível Bélgica, concentradas em São Paulo e estradas péssimas, nível Índia, por todo o país”, afirmou, fazendo referência à “Belíndia” — termo elaborado pelo economista Edgar Bacha para designar o Brasil como uma nação desigual, com características, simultaneamente, de país desenvolvido e de terceiro mundo.

“Não dá para fazer tudo, então é preciso priorizar a partir da demanda. Há estradas que não têm movimento, não é preciso investir ali. É necessário, isso sim, elevar a qualidade de rodovias mais importantes, e apenas tapar buracos nas que não têm movimento”, disse. Assim, dos quase 200 mil km de rodovias, 80 mil estão em estado péssimo, mas não têm um volume de demanda que justifique investimentos pesados. “É preciso concentrar esforços nos outros 120 mil km e elevar o nível de serviço das rodovias com mais tráfego”, destacou.

O professor explicou que a PILT trabalha o conceito de corredor logístico, considerando um crescimento de demanda de 43% até 2035. “A ideia é focar custo-benefício. Em infraestrutura, o setor público prioriza o benefício e o setor privado, o custo. A nossa plataforma considera os dois, sendo o benefício monetário e de eficiência”, afirmou.

As comparações do estudo avaliam um cenário pessimista, se nada for feito, um moderado, a partir dos projetos previstos até 2025, e um otimizado, considerado o melhor. Esse último prioriza onde está a demanda, o que permite reduzir a representatividade do modal rodoviário de 56,6% para 47,7%, e aumentar a participação das ferrovias, de 17,3% para 36,7% (veja quadro).


Outro lado
O secretário adjunto do PPI, José Carlos Medaglia Filho, disse que, embora a Fundação Dom Cabral declare usar a base de dados produzida pela EPL, não pode afirmar que suas conclusões estejam corretas, uma vez que a entidade pode estar usando premissas diferentes, e ainda não apresentou o trabalho para apreciação completa dos técnicos da empresa. “De qualquer forma, não podemos opinar sobre estudos que utilizem outras metodologias, desconhecidas por nós. Nós conhecemos e confiamos no PNL para a aperfeiçoar, a longo prazo, a infraestrutura do país”, afirmou.

Procurada, a EPL disse não ter tempo hábil para explicar por que o PNL não contempla a manutenção da infraestrutura existente. A ANTT ressaltou que é responsável por fiscalizar e regular um universo bem menor do que os 200 mil km avaliados, de apenas 10 mil km. E o Ministério dos Transportes informou que o PPI responderia pela pasta.

Gasolina cai 14,5% (nas refinarias)
A Petrobras anunciou ontem a sexta redução consecutiva da gasolina tipo A desde 30 de outubro, quando o combustível custava R$ 1,9855 nas refinarias, sem considerar tributos. Desta vez, o valor médio caiu 0,73%, de R$ 1,7082 para R$ 1,6958. A queda acumulada é de 14,5% no período. Porém, segundo último levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o preço, nos postos de todo o país, recuou, em média, apenas 0,3% de uma semana para outra. Em novembro, a redução acumulada nas refinarias é de 9%. A petroleira manteve o preço do diesel em R$ 2,1228.