Veiculo:
GLOBO.COM
  Secao:
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
  Data:
2013-09-10
  Localidade:
RIO DE JANEIRO
  Hora:
10:49:03
  Tema:
HIDROVIA
  Avaliação:
NEUTRA
  Autor: Camila Ancona - Do G1 Piracicaba e Região

Rio Piracicaba tem nove pontos de assoreamento no trajeto de 150 km

G1 percorreu o início do rio, em Americana, até Santa Maria da Serra. Expedição com 11 barcos durou 2 dias com quase 20h de navegação.
 
10/09/2013 07h19 - Atualizado em 10/09/2013 07h19

O Rio Piracicaba tem nove pontos críticos de assoreamento em 150 quilômetros de trecho, desde o início na junção dos rios Atibaia e Jaguari, em Americana (SP), até o município de Santa Maria da Serra (SP). O G1 constatou a situação ao percorrer todo o curso a barco durante dois dias, em 17 horas de navegação, junto da 3ª Expedição realizada pelo Grupo de Defesa Ecológica da Bacia do Rio Piracicaba (Grude). Este e outros problemas, como a baixa vazão, serão apresentados e discutidos durante a renovação da outorga para captação de água das bacias do Piracicaba (rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí ) pelo Sistema Cantareira, prevista em 2014.

Onze barcos navegaram pelas águas escassas na área de captação do rio que atende o Sistema Cantareira (responsável pelo abastecimento de 55% da Região Metropolitana de São Paulo, inclusive capital, e da bacia do Piracicaba) até o curso represado pela barragem de Barra Bonita (SP), com água abundante no trecho de Piracicaba até Santa Maria da Serra.

Hoje, o Sistema Canteira retira até 33 metros cúbicos de água por segundo das bacias para São Paulo. Já a região tem direito a cinco metros cúbicos por segundo da água, número que deveria ser triplicado, segundo o Grude. Veja galeria de fotos dos dois dias de expedição.

Entre os 'vilões' do assoreamento do rio estão a pecuária e as plantações de cana-de-açúcar, segundo o presidente do Grude, Evandro Rogério Santos. "A falta de reflorestamento nestas áreas é prejudicial. A região de Americana, e um pouco para baixo, foi densamente povoada e teve uma ocupação desordenada do solo. As pessoas fazem loteamentos irregulares, o que também contribui", afirmou. Em alguns trechos dos dois dias de expedição foi possível encontrar plantações de cana e animais percorrendo as margens do Rio Piracicaba. "É preciso manter a distância que a legislação determina."

1º dia: pedras, odor e sujeira
O primeiro dia de expedição pelo Rio Piracicaba passou pelas cidades de Americana, de onde partiu, seguindo por Santa Bárbara d'Oeste (SP) e parou em Piracicaba (SP) depois de 10 horas de navegação, onde os quase 60 tripulantes puderam descansar antes de partir para a segunda etapa. Seis pontos de assoreamento, inclusive, estão nesta região onde há a captação de água para abastecer o Cantareira. A baixa vazão, inclusive, fez com que os participantes tivessem, muitas vezes, que descer dos barcos para seguir viagem.

"As condições do rio estão piores do que imaginávamos com relação à vazão. Em julho deste ano, quando fizemos uma descida prévia para ver pontos de planejamento da expedição, nós só descemos da embarcação nos três pontos onde há cachoeiras: as duas da Ripasa e a dos patos. Mas desta vez descemos várias vezes para puxar o barco", afirmou Santos. Além da falta de chuvas do período, que foi atípico, o bombeamento do Sistema Cantareira é o responsável pela baixa vazão atual, ressaltou o presidente do Grude.

Durante a expedição foi possível verificar que os ribeirões Quilombo e Tatu (que são afluentes do Rio Piracicaba) estão em péssimas condições e prejudicam o curso de água. A tonalidade da água do Tatu parecia cor de café, devido à quantidade de efluentes domésticos e industriais. Já a do Quilombo até chegar em Piracicaba, a tonalidade é como a de chá. A professora da Unisal e coordenadora do curso de Engenharia Ambiental, de Americana, Brígida Pimentel Vilar de Queiroz, participou do evento para coletar amostras de água.

"Não é preciso nem fazer muita amostragem para verificar que o rio está muito poluído", afirmou Brígida durante a coleta. "Até o Quilombo havia água transparente, mas depois dele era possível observar matéria orgânica flutuando. O aporte de água dele dentro do Piracicaba está com índice de contaminação altíssimo", afirmou. O odor é muito forte nesta altura do rio, sendo quase impossível respirar sem sentir enjoo.

A análise já está sendo feita e deve demorar de três a quatro dias. "Se isso continuar, a tendência é que o rio fique igual ao Quilombo. É preciso aumentar o aporte de água nessa nova outorga do Cantareira para, pelo menos, diluir os poluentes que existem atualmente." A parte do deságue do Ribeirão Tatu também estava repleto de efluentes químicos e domésticos.

2º dia: abundância e qualidade da água
Já no segundo dia de expedição pelo Rio Piracicaba, o grupo encontrou uma situação um pouco diferente da primeira. Nesta etapa, apenas três pontos críticos de assoreamento foram achados durante o percurso. O trecho entre Piracicaba até a Ártemis também teve muita dificuldade para navegação. "Tinha local que constatamos de 20 a 30 centímetros de água sobre as pedras, ou seja, apenas uma lâmina d'água na maior parte do rio", afirmou o presidente do Grude. A classificação com relação ao odor e matéria orgânica diminuiu bastante neste trecho.

"A classificação três, de Piracicaba até Ártemis, é considerada regular. E de Ártemis até Santa Maria da Serra o nível da água é dois, o que é uma categoria boa. Mas ainda tem muito o que se fazer com relação ao reflorestamento nesta região devido à pecuária e plantações de cana-de-açúcar", afirmou Santos. A abundância de água neste trecho se deve à eclusa de Barra Bonita (SP), segundo o presidente do grupo, devido ao represamento de água. O segundo trecho durou sete horas de navegação, totalizando 17 horas de expedição pelo rio.

Apesar de bonito, o trecho de Tanquã, o "pantanal de Piracicaba", irá desaparecer devido ao projeto de construção da barragem de Santa Maria da Serra, que vai transformar em navegável um trecho do Rio Piracicaba, transformando-o em um lago permanente. A barragem faz parte do projeto de ampliação da Hidrovia Tietê-Paraná, para aumentar a navegabilidade de rios da região.